Como a viagem pode aguçar nossa essência criativa?


Inicia a viagem que eu tanto aguardava. Finalmente estou a caminho do paraíso e das minhas merecidas férias. Carrego comigo uma pequena mala vermelha, uma mochila verde com uma câmera fotográfica profissional, meu caderno de anotações e dois livros me acompanham: “Devoção”, de Patti Smith e “Fora de Mim”, de Martha Medeiros. O primeiro livro levo para reler e o segundo sou pega totalmente de surpresa. Costumo sempre nas minhas viagens, levar um livro que ainda não conheço, como se fosse um palpite de jogo, arrisco uma aposta sem prévio conhecimento e deixo o acaso me guiar.

E para minha surpresa a viagem começa com uma surpreendente história de paixão perturbadora. Bastaram três voos para que eu a devorasse, na espera entre uma conexão e outra. Entre pousos e aterrisagens sou conduzida por uma instigante literatura que vagueia com precisão pela parvoíce da mente humana. E por trás do tema do amor muitas reflexões sobre o que a autora nos faz enxergar com sua história: a importância, em nossas vidas da “pulsão de entrega”. Essa história me faz pensar em muitas e muitas entregas amorosas em minha vida até aqui, mas dentre elas, uma em especial, começo a vivê-la neste voo. Ela me conduz a um dos meus amores. Tive muitos amores de diferentes entregas, mas existe um amor maior, de total entrega, este se chama: o amor pela viagem. Uma das maiores pulsões de entrega que eu sempre me destinei a viver.


Toda grande viagem começa quando nós nos entregamos ao acaso. Seja lá o que for que encontraremos pela frente, precisamos estar preparados para aceitar o que vem pelo caminho. Este é um princípio que carrego na minha bagagem para todas as minhas viagens. Porque por mais que façamos de tudo para programar nossa viagem, no sentido de que tudo ocorra perfeitamente de acordo como gostaríamos que fosse na nossa cabeça, a viagem transcorre absolutamente à mercê de nós. O que nos cabe é aproveitá-la e extrair toda sua essência criativa, porque afinal, viajar é um evento que acontece de dentro para fora, mesmo os eventos que acontecem fora de nós, ainda assim, eles podem inspirar aprendizados e boas histórias dentro de nós. Pela viagem identificamos nosso ser artista, nossa essência de criadores que somos: pela viagem nos reinventamos.


Neste tempo suspenso que é a viagem inicio meu percurso íntimo. A primeira parada é na cidade que tanto amo, Brasília. Ela continua sendo um lugar de referência em minha vida. Suas linhas, tanto as traçadas, quanto as imaginárias se confundem com as linhas da minha história de vida. Chego feliz para encontrar meu companheiro de tantas viagens. Jantamos em nosso restaurante preferido, trocamos presentes e confidências tão nossas, tão especiais. Em seguida vamos ao hotel descansar, pois no outro dia cedo acordaremos para iniciar nossas esperadas férias.


No terceiro voo finalizo a história “Fora de Mim”, minha cabeça já está fervilhando de reflexões e lembranças. É impressionante o que um bom livro pode nos causar. Faço um breve escaneamento do meu passado, afinal este agora me faz rever o meu ontem. Quem eu havia sido antes de iniciar esta viagem? Toda boa viagem começa no seu íntimo. Quem fui até então? Quem desejo ser de agora em diante? Estas são as primeiras perguntas que eu levo para a minha viagem. De facto, o que uma viagem é capaz de trazer à nossas vidas? O que estamos buscando transformar em nós ao fazer uma viagem? Qual o caminho percorremos em nosso íntimo? Símbolo da descoberta a viagem tanto nos desperta para a vida, como para nós mesmos. Ela libera nossa criatividade. A viagem enxerta novos elementos estéticos e humanos. Ela introduz elementos fundamentais a criatividade: sentir novas paisagens e diferentes animais, ver novos seres semelhantes a nós vivendo de formas tão diferenciadas. É pela diferença que a viagem nos desperta a olhar para nós mesmos.


Eu desejava ver belas paisagens, eu desejava ver o melhor do Brasil! Nosso destino traçado era nada mais, nada menos do que o tão falado “Lençóis Maranhenses”, mas antes disso, decidimos passar três dias na cidade de São Luís, capital maranhense. Lá a contradição se faz explícita. Na histórica cidade colonizada por franceses, com seus infinitos casarões, o descuido com o belo patrimônio faz doer o coração. Por toda parte que percorremos a contradição é gritante e quanto mais nos dirigimos à periferia, maior o lixo, maior a pobreza, maior o descuido. Os urubus são fartos. No porto é possível avistar as imensas esteiras que sobrevoam a estrada contendo a soja e o milho que alimenta o país e quiçá o mundo. Ah o Brasil! País que tanto nos orgulha e tanto nos fere. Sim a viagem nos faz ver o real. Faço questão de não fantasiar minha viagem, pois a vida é feita com todos os ingredientes. Sonhar é preciso, mas acordar é necessário.


A arte de criar não advém somente do belo, o trágico é objeto de criação igualmente. Por dentro algo despedaça a mim e meu companheiro de viagem, não é fácil olhar pra isso e virar as costas como se nada fosse visto, só porque neste momento estamos em uma condição de privilégio. Olhamos de frente, olhamos pra nós. Temos algo a dizer ao mundo, temos sim algo a fazer. E a viagem mexe e remexe por dentro. Enfrentamos os desafios da contradição. O que se há de fazer? Delatar? É preciso continuar a arte de viver. Fotografar, escrever, denunciar o Brasil para o Brasil. A viagem continua até que possamos encontrar a nossa paz, nem que seja por segundos, minutos, horas. A viagem continua dentro de nós, o melhor sempre está por vir.


Passados os três dias na capital continuamos a nossa viagem rumo ao interior. No caminho encontro algo que me enternece, a Jumenta, com seu doce olhar. Peço para parar o carro, desço e vou acariciar minha nova amiga. A viagem de férias que eu tanto aguardava está agora à minha frente. Seguimos felizes o nosso percurso até encontrar o Preguiças, rio que me faz rir por dentro e por fora. Nado, nado, nado em direção ao ócio. Viva o Brasil tropical! Cheio de suas belezas, rico, potente, com gente linda, com gente amável, com lagoas paradisíacas, com frutas saborosas, com tudo de melhor, com toda a sua riqueza humana e natural.


No sobrevoo vejo a imensidão de belezas sem fim. Eu encontro meu caminho de paz, eu me refaço do despedaço anterior. Eu nado nua, eu vivencio minha criança, eu reverencio a natureza como sempre, como nunca. A viagem me traz de volta a minha origem, ser criativa é um dom que não posso negar. É missão que deve ser vivida no seu íntimo. Eu me entrego a maior de todas as pulsões: criar é o maior ato de liberdade. Eu crio e alegremente acompanho meu companheiro de viagem criar. Eu vejo nossa guia criando. Eu faço de minha vivência uma experiência intensa de paz. Eu me harmonizo e com um sorriso harmonizo o meu entorno. Eu volto ao útero. Sou criatura e criação. Eu me libero de alguns traumas. Eu antecedo a morte. Eu vivo sem amanhã.

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E agora cá estou em minha amada ilha, a viagem nunca acaba nesta ilha. A viagem nunca acaba a quem se entrega a sua essência criativa.


*A foto de registro da performance "a origem" foi realizada durante a minha viagem a Lençóis Maranhenses, em agosto de 2021, por Cássia Redó, posteriormente trabalhei a imagem digitalmente.


Quer saber mais sobre meu trabalho como orientadora criativa, acesse meu site www.silvanalealart.com e se quiser conhecer meu trabalho e dos meus orientandos e orientandas acesse www.ateliecasadasideias.com ou ainda conheça os trabalhos audiovisuais no canal https://www.youtube.com/channel/UCBXUeugNxvt_xoTqDC2Xt4w


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